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11 de fevereiro de 2011

Crônicas cariocas em breve!

Já fazia um bom tempo que não postava novamente. É um péssimo hábito: escrevo uma vez, noutra hora já fico pensando no que escrever - saio da frente do pc e não mais o faço. Tudo bem, isso um dia irá mudar. Um dia.
Desta vez, porém, mais motivos trancaram os escritos. Mal fiquei em Porto Alegre desde a última vinda do litoral. Parti novamente para Atlântida Sul e, mal tendo parado em Poa, fui ao Rio de Janeiro. Foram quatro dias muito intensos e de novos conhecimentos a serem traçados, reconfigurados e expostos nesse blog. Portanto, a partir das próximas postagens, teremos as Crônicas cariocas aqui expostas.
Além disso, estou no 12º livro de leitura das férias. Li obras sobre as quais nem escrevi aqui, mas ainda pretendo fazê-lo - caso o esquecimento não perturbe qualquer movimento na hora da digitação. O mais curioso é que, nesse momento, estou lendo o Gênesis. Não, não estou relenfo aquela obra sobre o que falei no final do ano retrasado, mas o da bíblia mesmo. Afinal, os mitos fundadores partem da mesma premissa que há nesse texto: não saber como tudo começou, ritualizar sobre uma determinada história e difundi-la através dos tempos. Assim os mitos permanecem e se recriam. Para tanto, ler essa obra e comparar com Caim, do Saramago, por exemplo, torna-se muito útil.
Ainda não virei um crente, se isso te preocupou.
Nos próximos dias, os textos seguirão.

27 de janeiro de 2011

Doutor Miragem

Em diversos momentos de nossas vidas, um lapso nos ocorre: o que foi aquilo que vi? O que é isso que tenho em mãos? O que eu sou? O que é o que me roda? Nunca reparamos, no entanto, que possivelmente estejamos nos preocupando demais com aquilo que fazemos ou temos e deixamos de nos perceber.
Em Doutor Miragem, um dos melhores livros do Scliar que já li, um médico recém formado, após toda uma história de dificuldades para chegar ao patamar em que se encontrava, tem a possibilidade de finalmente ser alguém na vida. Afinal, sua infância e adolescência foram cobertos de dificuldades, de uma doença que quase o matou num trajeto de caminhão com o pai, dificuldades financeiras, amorosas. Quando é enviado a Piraí para ser o único médico da cidade, torna-se monstruoso, suprassumo, colocando suas ações e suas vontades à frente de tudo.
Fazemos por merecer aquilo que nos é imposto. Afinal, todos os dias temos atitudes que geram nossos desejos e a vontade de seguirmos determinado caminho. Quanto mais provamos os sabores que cada felicidade e cada tristeza nos proporciona, conhecemo-nos ainda mais. Assim, o caminho do protagonista da história se fez, cheio de percalços que dificultaram sua vida, mas para uma redenção ao final. Redenção essa que não necessariamente é prazerosa, mas segue um determinado desejo ambicionado pelo personagem desde o início da narrativa: ter sobre si o foco dos holofotes.
Nós queremos ter o holofote voltado pra nós mesmos? Quem sabe supomos que isso nos traga um laço de sentimentos bons. Não nos esqueçamos, no entanto, que cada movimento nos representa, mostra o que realmente somos. Mesmo que queiramos que nos vejam ou que saibamos o que é cada coisa ao nosso redor, precisamos ter a perfeita noção do que realmente somos e do que queremos.

Minha primeira vez com Maigret

O primeiro livro que li no litoral foi Maigret e o sumiço do Sr Charles. Estava pensando por qual obra começaria e cheguei à conclusão que um romance policial seria o mais divertido para começar. Afinal, como já fazia alguns dias que lia pouco, o melhor foi retomar por uma história mais instigante. E felizmente deu certo!
Foi a minha primeira vez com Maigret. Não conhecia exatamente como eram as obras do George Simenon, pois só havia lido fragmentos, nunca um texto completo. Assim, comecei a leitura do texto, e a chegada da misteriosa esposa do homem desaparecido já tornou o livro instigante: uma mulher que vivia bêbada, sem qualquer laço com a sanidade, acusa o desaparecimento do marido. O investigador desconfia, mas vai atrás das informações dadas. Como todo bom livro policial, o protagonista não investiga o crime meramente, mas todo o universo dos personagens envolvidos: o que fazem, o que são, a quem devem, etc.
O fim da história será omitido, pois acho que todos deveriam ler um pouquinho de Simenon. De qualquer forma, o texto não chega a ser totalmente surpreendente, mas a leitura é tão gostosa que o final deixa de ser o mais importante. Saber quem é o assassino e por que isso ocorre torna-se secundário - apesar de todos querermos saber o que aconteceu afinal. Ainda assim, toda a aventura mental das personagens destaca um pouquinho do mundo que temos à disposição: loucuras doentias, sanidades maleáveis, falta de imposição da verdade. De tudo aparece.
Foi minha primeira vez com Maigret e já quero a segunda. Tenho em mãos As férias de Maigret, mas ainda não sei quando o lerei. De qualquer forma, espero qu seja uma leitura deliciosa, bem como foi a primeira. No mais, passarei boa parte da obra investigando quem será o assassino e a que se devem os motivos de tais crime. É uma ótima leitura de férias.

15 de janeiro de 2011

A pintura e o descritivismo

Após a leitura da obra Homem Comum, de Philip Roth, deparo-me com uma questão muito curiosa para os apreciadores da arte: qual seria a pintura ideal para a visão? Aquela coberta de detalhes, que valoriza as formas reconhecidas, como uma Monalisa, ou a pintura mais abstrata, recoberta de sentidos inconscientes, como a produzida pelos modernistas?
O Homem Comum de Roth é um ser que falecera, mas que buscou durante a vida explicações sobre sua própria existência e que, desde pequeno, estabeleceu contato com a morte. Há vários flashes no decorrer da narrativa: a relação com o pai, o seu trabalho na relojoaria, a relação com seu irmão Howie, com as três esposas, com as amantes, com os filhos. Cada um tem seu espaço distinto no decorrer da narrativa, permeada de detalhes que tornam o texto, em certo momento, bastante denso e pouco fluente. Ainda assim, é uma obra que destaca a natureza do homem e sua relação com seus medos, principalmente quando se refereàs perdas.
O protagonista da história, quando idoso, vai para uma comunidade litorânea frequentada apenas por aposentados. Visto que a morbidez do local não é pequena, resolve dar aulas de pintura aos moradores. Assim, redescobre-se útil e ajuda aqueles convivas que não tinham maiores atividades durante o dia. Aí entra a pergunta feita inicialmente no texto: numa de suas aulas, ele pede que os alunos interpretem a natureza morta (frutas, xícara, bule) e façam suas telas. Ao verificar a produção de cada um, percebe que algumas "bizarrices" acontecem, alguns fraquejam, outros desejam abstrações. É difícil delinear um mesmo raciocínio para todos os presentes. De qualquer forma, a pintura solicitada pelo personagem é a de formas razoavelmente fixas, bem como o faz o narrador, ao descrever com tantos detalhes cada elemento do texto.
Se uma produção artística dotada de detalhes é o que melhor faz a mente de quem a vê, um texto como o de Roth possivelmente também o fará, já que cada elementos exposto é visto com uma série de termos que o elucidam. O leitor deve estar preparado para enfrentar esse tipo de situação, pois a cada movimento da narrativa, um novo detalhe está colocado. Cabe a cada um desdobrar a narrativa - e a nossa cabeça, para filtrar todas essas informações.

12 de janeiro de 2011

Erotismo leve para moças recatadas

Recebi esse texto do site Amálgama. Vale conferir!

por Michelle Horovits
Segundo Jung, quando um fenômeno psi­cológico forte acontece na vida de um indivíduo, isto demonstra que um tremendo potencial inconsciente está prestes a emergir, prestes a manifestar-se na consciência. Em certo ponto da história de uma sociedade, uma nova possibilidade surge do inconsciente coletivo. O amor romântico é um desses fenômenos estranhamente bizarros que surgiram na história dos povos ocidentais. Foi algo que esmagou nossa ideia de amor e alterou para sempre nossa visão do mundo.
E com esse começo bárbaro temos as clássicas histórias de amor, receitas de comédia romântica hollywodiana, e os subestimados, mas não menos importantes romances de banca. Com personagens lindas, loiras e estupidamente apaixonadas à moda ocidental, eles espalham a ideia de um amor perfeito, com homens maravilhosos e viris e que duram a eternidade de suas poucas páginas.
Com o batido “No fim eles viveram felizes para sempre”, porque essa é a fórmula que rende milhões de dólares até hoje e que é a base desse império dos romances banca, estes livretos podem ser comprados pela bagatela de R$ 5,00 ou menos em qualquer esquina que se preze e que tenha um jornaleiro.
Devo confessar que grande parte da minha bagagem literária começou com o afanar dos livrinhos que minha mãe escondia tão bem no guarda-roupa. Era Rebeca, Sabrina, Bianca e Jéssica, todas grandes conhecidas. Minha mãe afirmava que eram romances muito pesados para os meus 11 anos, pois descreviam cenas picantes para as moçoilas. A verdade é que a pegação rolava solta entre os condes, princesas e tudo o mais.
Mas o grande segredo para cativar o público (entenda-se mulheres, e 80% na faixa dos 30), era que as cenas eróticas não poderiam ser pornográficas. Tinha que ser como os Emanuele que passavam de madrugada na TV. As cenas de sexo devem ser contadas em detalhes, mas sem apelar para palavras pesadas (entenda-se que pau nunca apareceu naquelas folhas) ou gírias. Afinal é erotismo leve para moças recatadas.
Os primeiros livretos apareceram no Brasil, nas décadas de 40 e 60, e tinham o nome nada preconceituoso de Coleção Biblioteca para Moças. Tratava-se de “literatura cor-de-rosa”, como passou a ser chamada. Se aproveitar do imaginário romântico do mulherio foi infalível, pois de acordo com uma pesquisa do Daily Mirror, os tais romances estão entre os mais vendidos de 2010 entre os livros eletrônicos (e-books) e o Kindle, alcançando 57% de vendas.
Uma das favoritas e mais famosas escritoras desses romances água com açúcar é a inglesa Bárbara Cartland. Lembro que ela apareceu de roupa azul e cara pintada bem velhinha em algum Guiness que eu tinha quando pequena. A escritora vendeu mais de 1 bilhão de cópias e escreveu 723 romances. Entre eles o Valsa Encantada, guardado até hoje entre os clássicos da literatura na estante de casa.
Os enredos são meio batidos; quem quiser conhecer as moças, deixe-me apresentá-las. Os nomes existem para separar categorias. Nos tipos “Sabrina” sempre tem um casal infeliz que supera tudo; sempre se desenrola nos dias de hoje. “Jéssica”: tem tipos mais “calientes”, muitas cenas de amor na praia, em castelos com homens viris e sarados e promessas de amor eterno à luz da lua. “Bianca” é para as mulheres que gostam de sagas na Idade Média e sonham em ser rainhas e princesas; tem o casal que passa milhares de dificuldades para ficar junto, sogras doidas, condes, casamentos, lutas pelo amor da mocinha e tudo o mais que interessa para as fãs românticas.
Aliás, o que realmente importa nesses livretos é que no final o casal tem que viver feliz para sempre após enfrentar muitas dificuldades para conseguir ficar juntos, e que em cada página a leitora possa encontrar as fortes declarações de amor do galã para a mocinha e o lindo casamento no fim. Tem que se passar em lugares exóticos e distantes e ter uma moça bonita e um galã sem camisa na capa em posição de quase beijo. As mais famosas são as capas com Mika Dale. Enfim, o que importa é não existir na vida real, ser barato, fácil e alimentar essa ideia de amor frufru ocidental perfeito, que no fundo no fundo (bem lá no fundo), todas nós adoramos.

O pasto e as securas do homem

Ao passar a tarde na casa de minha mãe, li um livrinho de poemas dum gaúcho de Alegrete chamado Russel Vaz Morais, O pasto. No meio de tantas leituras que gostaria de fazer - tendo as esquecido em casa - resolvi apelar para os livros de meu irmão. O próximo da lista, inclusive, é Homem comum, do premiado Philip Roth.
Na coletânea de poemas dispostas pelo autor, percebe-se uma grande relação entre o homem e o campo, possivelmente pela maior proximidade que há entre a origem do autor e sua convivência. Também existem textos, porém, que escancaram uma certa realidade da sociedade do interior e da capital também: a essência da futilidade. Num dos poemas, que trata sobre baile de debutantes, há a diferenciação dos objetivos do menino que vai à festa e da socialite: enquanto um anseia pela visão daquela menina amada, a outra anseia pela visão de todos, como foco centralizador de um evento. Quanto ao menino, sabe-se que, desde sempre, o homem busca a mulher para sua relação futura, para o encontro amoroso; quanto à socialite, qual objetivo teria se não apenas ficar em evidência? Busca também ser o foco do menino? Quer mais do que olhos a lhe observar? O que deseja alguém que quer apenas ser lida e se ler num jornal ou numa revista?
Questões simples, mas que podem trazer com força a futilidade humana. Afinal, se o bem comum avança as fronteiras da individualidade, não haveria necessidade de que o foco fosse único. A visão das pessoas por vezes é tão reduzida que se esquece que o próximo necessita mais de atenção do que a si próprio. Veja o menino do poema, por exemplo: seria ele tímido? Seria quem sabe apaixonado pela debutante? Buscaria fazer algo para agradá-la ou para que se sentisse melhor com ela? Também não sabemos. O que fica, porém, é que a busca do menino é muito mais válida que a da mulher, já que seu sonho pode determinar sua vida com muito mais significados que a dela.
Um livro simples, mas com poemas bastante relevantes para pensar. Um tema simples, como o baile de debutantes, e as inúmeras possibilidades a se concretizar. A leitura da tarde teve seus pontos interessantes. Espero, agora, que o Homem comum seja realmente alguém de valor, pois até mesmo o comum pode superar toda a futilidade que nos ronda cotidianamente.

9 de janeiro de 2011

Nathalie X: o X da questão em cada narrativa

Sempre gostei de romances policiais. Na verdade, muito mais que policiais, histórias de mistério, em que se descobre a situação de um crime depois de inúmeras pistas deixadas e descobertas no texto. Um mundo imaginário permeia nossa mente até que a resposta chega - muitas vezes distante do que esperávamos.
Contradizendo isso, a obra O destino de Nathalie X e outras histórias marca um tipo de policial que não se baseia necessariamente na busca por um final apoteótico ou dotado de suspense: marcam-se diversos relatos de pessoas que viram, presenciaram ou suspeitaram de algum crime - o suficiente para montar a narrativa. Sendo assim, nos contos apresentados por William Boyd, há a seguinte situação: um crime foi executado; pessoas viram algo; compila-se os dados e a história está pronta. Há uma certa frieza na narrativa, o que torna a obra até certo ponto desgostosa, mas não menos curiosa para saber qual é o ponto de vista do narrador sobre os ocorridos.
Uso como exemplo o texto N de N, a narrativa mais curta presente. Fala-se sobre uma personagem nascida no Laos, que teve um determinado tipo de vida e acabou morto atropelado por uma bicicleta. Naturalmente se diz sobre o que ele fez, a obra-prima que escreveu, o sonho de morar em Paris, mas meramente descritivo, sem qualquer movimento de ação no texto. Sendo assim, aquilo que se espera de um texto policial se perde em pouco tempo.
Há amantes das mais diversas literaturas perdidos por aí. Claro que o gosto de cada um deve ser considerado na hora de escolher um livro para leitura, mas volta e meia somos surpreendidos pelo que o texto nos apresenta. Fui surpreendido novamente - apesar de negativamente - e julgo ser necessário continuar a incessante busca por um texto que seja o ideal para nós. Alguns autores já me deram esse prazer, mas William Boyd infelizmente não foi um deles.

8 de janeiro de 2011

Dez (quase) amores e (centenas de) risos

Ler obras da Cláudia Tajes está virando um pequeno vício, que venho cultivando desde Louca por homem. Pequenas cômicas tragédias na vida de uma mulher que busca o encontro com a felicidade são as tônicas de obras que abrangem muito mais do que o perigo dos relacionamentos amorosos. Isso se comprova na obra citada, em A vida sexual da mulher feia e Dez (quase) amores.
Maria Ana é uma mulher que, desde tenra idade, sofre com as desilusões amorosas. Mágico de circo, cardiologista e pintor são alguns dos tipos masculinos que penetram as dificuldades da personagem. Visto que no início da obra a narradora já expõe sua aversão por determinados tipos masculinos, presume-se que dificilmente ela seguirá seus próprios requisitos ou encontrará alguém à altura de seu desejo. No entanto, no decorrer da narrativa, os problemas a tornam cada vez mais suscetível aos homens que casualmente lhe aparecem, mantendo relações esdrúxulas, mal resolvidas e - por que não? - altamente desamorosas.
É interessante perceber, no entanto, que, por trás de uma mulher que não consegue encontrar o amor ideal, está uma jornalista formada, que desempenha suas atividades com perfeição; tem uma vida social bastante razoável com família e amigos, que prontamente a atendem ou ela a eles; embeleza-se muito pelos homens que encontra, mas não se menospreza perante as dificuldades encontradas. Sendo assim, é um protótipo perfeito do que observamos no cotidiano: mulheres mais ativas, mais fortes, que trazem seus ideais para serem praticados.
Uma obra como essa é passível de inúmeras risadas. A expressão determinada pela autora mostra uma ironia simples, mas dotada da mais alta complexidade quando relata o envolvimento amoroso. Dar errado numa relação é algo da vida, mas fazer com que várias pessoas riam da desgraça alheia - que poderia ser a nossa própria - é coisa de bons autores.

5 de janeiro de 2011

O mito do eterno retorno ou a busca de si em cada um?

Volto a escrever no blog pra tratar de algo que me dá muito prazer. Li mais uma obra do Bernhard Schlink. Dessa vez, perdi-me em tempo lendo A volta pra casa, o romance mais longo do autor, mas não menos impetuoso e repleto de buscas infinitas sobre si próprio. Termino de ler a obra dele com a sensação de que gostaria que tivesse produzido ao menos mais umas 20 obras. Acho que nunca gostei tanto de um autor quanto desse alemão velho.
O enredo da história se faz a partir da leitura da obra Leituras leves e divertidas, que os avôs de Peter Debauer compilam, a partir de inúmeros originais que lhes são enviados. O gosto do menino Peter pela leitura se expande ao ler aventuras relativas à 2ª GM, apesar de os compiladores dizerem que não deveria ler uma página do que ali estivesse. A vontade foi tanta que chegou aos seus olhos a história de Karl, um antigo guerrilheiro que fugia das consequências da derrota alemã e retorna à sua antiga casa, revendo a esposa. Esse último detalhe, no entanto, é omitido, o que faz com que Peter comece uma busca grandiosa por saber a real história daquela personagem. Enquanto a narrativa mostra todo o crescimento psico-afetivo e intelectual do leitor, uma busca desenfreada por saber quem é seu pai e qual a sua origem permeia o texto.
Novamente, a obra do autor expele situações de beleza única. A vontade de encontrar os resquícios de um passado nebuloso o tornam obsessivo, contudo lúcido para todas as conclusões. Ao descobrir quem é seu pai, um rearranjo na narrativa questiona o leitor: de que vale o passado se as impressões para seguir adiante se prendem ao presente? Será que o que somos é determinado por ações que já nos transformou em quem se está ou a possível modificação do futuro se dará pelas atitudes que queremos em relação aos demais? Num jogo de ida e volta, de presente e passado, numa mente que, em primeira pessoa, discorre sobre sua criação, suas leituras e suas frustrações, a conclusão que Schlink nos permite chegar amplia o horizonte da existência de cada ser: somos aquilo que nos forneceu o passado, mas angariamos um futuro a partir de nossos desejos. Ou, como diria uma das máximas presentes na obra O pequeno príncipe, "te tornas responsável por aquilo que cativas".
Se a nossa existência dependesse apenas de nosso passado, nunca um futuro chegaria com possibilidades melhores. Afinal, cada um teve seus atos e suas consequências. Infelizmente, nem tudo é o que desejamos, mas aquilo que realmente queremos também deve se fazer presente. Num ato de coragem e curiosidade, Debauer buscou o encontro com o passado. No entanto, seu maior desejo foi, singelamente, voltar para casa. Nós também queremos nosso lar calmo e sereno, para que, ao voltarmos, notemos que toda nossa busca por uma vida melhor tenha sido reflexo de atitudes significativas e compreensivas. Somos também tudo aquilo que queremos ser. Bem como também queremos voltar pra casa.

17 de julho de 2010

Aproveitando as férias...

Ler é fundamental e todos já sabemos. No site Kzuka, dois editores do Grupo RBS deram suas dicas de leituras para a gurizada aproveitar nas férias. Selecionei um deles, bem fundamentado, para deixar de dica para gurizada:

* Luiz Antônio Araujo (@luizaraujo_) — editor de Cultura do jornal Zero Hora desde 2009. No jornal desde 1996, passou pelas editorias de Capa, Geral, Digital, Segundo Caderno e Política:

Ler é uma grande viagem. Com a vantagem de que você não precisa enfrentar lista de espera, overbooking ou o Salgado Filho fechado pela neblina. Quem lê – especialmente quem lê bons livros, mas, em última análise, qualquer tipo de livro – cresce, amadurece e aprende a conhecer a si e aos outros. Aqui vão, portanto, algumas dicas para estas férias:

Romance: é uma história longa, escrita em prosa (não em verso), por meio da qual o escritor nos conta acontecimentos sobre um ou mais personagens. Dizem que o primeiro romance foi "Dom Quixote", do espanhol Miguel de Cervantes, a história de um homem que enlouquece depois de ler livros de aventuras de cavalaria e sai pelo mundo a tentar repetir os feitos de seus heróis. Experimente ler "O Apanhador no Campo de Centeio", de J.D. Salinger (Editora do Autor), "A Viagem do Elefante", de José Saramago (Companhia das Letras), ou "Khadji-Murát", de Liev Tolstói (Cosac Naify).

Conto: é uma história curta e concentrada em prosa. Você pode imaginar que é mais fácil ler um conto do que um romance. Em termos: mesmo um conto exige atenção e envolvimento de quem lê. Quer fazer um teste? Leia "Os Melhores Contos de Horror do Século XIX" (Companhia das Letras), "Contos Completos", de Sergio Faraco (L&PM), ou "A Dama do Cachorrinho", de Anton Tchekhov (L&PM).

Poesia: é lance mulherzinha, certo? Errado. Por muitos séculos, o melhor da literatura foi feito em versos, incluindo a Bíblia e as epopeias gregas. A poesia não é mais a rainha dos corações, mas nem por isso deixa de ter encanto. Forme sua própria opinião lendo "Antologia Poética", de Vinicius de Moraes (Companhia das Letras), "Alguma Poesia", de Carlos Drummond de Andrade (Instituto Moreira Salles), ou "Caixa de Sapatos", de Fabrício Carpinejar (Companhia das Letras).

História: você é do tipo que prefere ler sobre coisas que realmente aconteceram? Pois saiba que isso é motivo de uma grande polêmica entre as pessoas que escrevem sobre História com H maiúsculo. De qualquer maneira, há muita coisa boa escrita por historiadores e mesmo por jornalistas para ler. Tente "1808", de Laurentino Gomes (Ediouro).

- Biografia: é a história da vida de uma pessoa, escrita por ela mesma ou por outros. Você curte? Então leia "Beatles – A Biografia", de Bob Spitz (Larousse do Brasil), ou "Chega de Saudade", de Ruy Castro (Companhia das Letras).

- Ciência: o seu negócio é entender as grandes descobertas científicas, o que o homem já descobriu ou está por descobrir, como surgiu o cosmos, essas coisas. Então você tem de ler "A Grande História da Evolução", de Richard Dawkins, ou "A Dança do Universo", de Marcelo Gleiser (ambos da Companhia das Letras).

Se nada do que você leu aqui lhe empolgar, faça a sua própria lista de leitura. Vá a uma livraria ou uma biblioteca, converse com os amigos, escolha os títulos que mais têm a ver com você e comece a ler. E não esqueça: ler deve sempre ser um prazer. Se aquele livro que sua avó lhe deu de aniversário está lhe chateando, deixe-o de lado. Talvez algum dia ele desperte seu interesse. O importante é ler o que você quiser, aqui e agora.

1 de julho de 2010

Bia Tognazzi e suas desventuras ortodoxas

Mantive contato, durante a semana passada, com o Gustavo, da Editora Dublinense. De um papo bastante agradável via e-mail, em que falei sobre minha vontade conhecer algumas obras da editora com fins de veiculação entre meus alunos. Os temas das obras eram interessantes. Recebi quatro obras: Contas de mais-valia, Sanga menor, Crime na Feira do Livro e um que muito me interessou - já li e recomendei - chamado Moinhos de sangue.
Nessa obra, uma socialite porto-alegrense de 37 anos anseia um casamento. O problema eram seus inúmeros pré-requisitos: ricos, de bom sobrenome, educados e que a mantivessem acesa por muitos anos. Tudo bem que, ao revê-los, ela resolve desistir de encontrar um príncipe encantado e parte para aquele que melhor lhe sairia como marido. A pressão exercida pela mãe, a mais bela mulher de sua época na sociedade gaúcha, pela sobrinha, vista agora como a que mais chamava atenção, tirando o lugar dessa socialite, faz com que ela busque um par definitivo para retomar sua posição. Bia, a personagem principal, tem adoração por Ualdisnei, com quem não deseja casar, pois, além de ter um nome considerado bizarro, falava menas. Preconceito linguístico escancarado. De qualquer forma, ela aplaca Vitor Hugo, casado então com uma bêbada que dava vexames o tempo inteiro. Para tirá-la do caminho, resolve matá-la. A narrativa é toda montada através da ótica de Bia, que fará com que todos caiam em suas artimanhas.
Mais interessante que isso é a forma como Bia Tognazzi dialoga com seus próximos. Soninha, sua melhor amiga desde o colégio e patroa dos pais de Ualdisnei - o que promoveu o encontro entre Bia e Ual - é a fiel escudeira. Intitulam-se Maligna e Maléfica. Soninha, porém, de Maligna não demonstra nada: tem um casamento regular com Cláudio, dois filhos, cuida da casa. Bia não poderia ser assim, já que seu perfil é extremamente agitado, praticamente bipolar. Quando Bia mata a esposa de Vitor, ela não dá nem sinal de arrependimento, tanto que sua amiga nem desconfia de quem fora o assassino. Após, com as mortes posteriores - e do jeito que foram - Maligna desconfiará e acusará Bia, que mal dá bola pra isso e ainda chantageia Sônia.
As atitudes de Bia não têm fim trágico para ela. Num local em que se importa muito mais com as aparências e seus níveis sociais, não há motivo para querer buscar os reais culpados de crimes totalmente abafados pelos realizadores. Assim, o que Bia Tognazzi busca é atingido com êxito, tendo um casamento de sonhos, mesmo não amando ou sequer suportando o marido. Seu desejo era Ual, mas até esse ser ela acaba atingindo. O desatino pela posição gera uma série de desventuras, o que acarreta certo humor ao desenrolar da obra, pois é dessas cretinices que ela cria, através de um desbocamento voraz, que a faz forte e capaz de realizar as ações. Vira ortodoxa, pois o que faz pela primeira vez ela fará mais vezes, quantas forem necessárias. A personalidade de Bia é domada pelos instintos mais puros, porém realizados de maneiras mais trágicas.

28 de junho de 2010

Todos já sabiam

Um local em que tudo é voltado para o mais simples. Uma cidadezinha do interior, poucos habitantes. Um clima quente, um povoado em que todos se conhecem. Essa é a ambientação de Crônica de uma morte anunciada, de Gabriel García Márquez. Todos já sabiam o que iria acontecer. Nada fizeram.
Um cidadão que tem seu nome veiculado desde que uma moça espancada afirma ter sido ele a maltratá-la faz com que toda uma geração se comprometa com o ódio e assuma a situação de não deixar a honra de lado. Há inúmeras facções da sociedade que ainda primam por essa tola e estúpida situação. Se todos soubessem que quem realmente fez aquilo com a mulher não foi o prometido à morte, surpreender-se-iam tanto que não fariam nada contrário.
Num momento em que a busca pela solidariedade ainda é uma constante na vida de todos, esse tipo de ideia vai na contramão. Naturalmente a obra de García Márquez tem muito mais a aprofundar do que isso, mas o fato de eu estar estupidamente preocupado com o jogo do Brasil contra o Chile me impede de pensar em aprofundar esses pensamentos. Aliás, todos já sabiam: vitória do Brasil.

22 de junho de 2010

Tom Bombadil

Li ontem As aventuras de Tom Bombadil. Como eram duas traduções, li a literal, independente da forma, preferindo os versos brancos e a técnica mais narrativa para compreender um pouco dessa personagem. Durante os 16 poemas presentes, procurei me manter ligado numa sequência histórica de fatos literários. Pena que justamente isso não havia.
A função do poema lírico tem seu fim em si mesmo. O épico é aquele que apresenta uma história sequencial em casa parte ilustrada, ainda dividido em cinco principais: apresentação, invocação, dedicatória, narrativa e epílogo. Nos poemas sobre Tom Bombadil, há uma série de aventuras as quais o personagem se encaixa, além de outros em que ele conta sobre mitos e lendas da Terra-Média. É um livrinho bem curioso, de fácil assimilação e que busca refletir sobre os acontecimentos anteriores às grandes narrativas desse mundo, colocadas no Silmarillion e no Senhor dos Aneis.
Achei muito interessante o poema sobre a Princesa Mi e a outra princesa que ficava num poço de cabeça para baixo. As duas nunca se veriam, pois a "afogada" não podia ver a beleza de Mi, já que ansiava ser tão ou mais bela que a outra. Assim, as duas se sentiam apenas pelos pés, numa imersão provocada pela imagem da irrealização. Afinal, o desejo pelo que se não pode ter já é uma busca sem vitória, pois se aceita desde o início que nada será como se busca.
Apesar das várias narrações, as feições mais belas do texto se prendem às descrições do ambiente e das personagens. O aparecimento do Homem-Salgueiro, do próprio Bombadil, da Princesa Mi e do Troll configuram boa parte da rede de personagens que se destacará nas obras supremas de Tolkien. É uma boa leitura pra quem se interessa pela assunto e quer conhecer como ocorreu a formação das lendas da Terra-Média. Só não busquem muitas aventuras por lá.

20 de junho de 2010

Amor e equivalências demoníacas

Como dissera, um de meus alvos nesses dias inóquos foi Do amor e outros demônios, do Gabriel García Márquez. Num dia, à noite, tossindo e sentindo moleza pelo corpo, peguei dois livros para ler, dentre os quais o citado. Uma leitura inquietante, apesar de momentos mornos, repleta de seres que só podem fazer parte da literatura fantástica.
A obra trata sobre uma menina que fora desprezada desde a infância por pais que nunca se amaram. Um cão raivoso a morde e tudo parece se encaminhar para a morte da menina; pelo contrário, quem morre é o cachorro. A partir daí, a narrativa toma contornos sobre-humanos, pois se passa a crer que Sierva María está dominada pelo demônio.
Surge a figura inquietante do Padre Delaura. Servo do bispo local, ele é convocado a exorcizar o corpo da moça. Excentricamente, o pároco se apaixona pela possuída, com quem deseja ter uma relação intensa, porém se reprime diante de sua condição eclesiástica. De qualquer forma, em dada altura da narrativa, ambos ficam frente a frente, postos em prova seus sentimentos, para a redenção acontecer.
O amor entre o padre e a moça denota diversos demônios. O amor é o principal deles, tendo em vista que as imagens são mais claras do que os sentimentos representados: o pai e a mãe de Sierva María têm um casamento de fachada, já que ele era um nobre que não obteve seus ideais amorosos quando mais jovem, casando-se com idade avançada e com uma mulher muitos anos mais jovem que o despreza. Levando em conta o péssimo relacionamento e a gravidez dela, passam a se odiar ainda mais, jogando no feto todas as atrocidades que diziam um ao outro. Assim, Sierva fora jogada aos escravos, que a cuidaram e a tornaram comum. Outro demônio presente na obra é a veneração religiosa como preconceituosa e distante da dos escravos. Um dito amor transcendente que não aceitava a religião alheia e promovia bizarras circunstâncias as quais os escravos eram obrigados a ter. Padre Delaura é outro que sofre por isso, pois crê no amor de Deus antes da fé, mas deve servir ao que seus superiores o indicam. Outra situação, para não me delongar, é a da própria Sierva: o amor pela cultura dos escravos é demonizada, transformando-a num ser totalmente privado de suas vontades por não poder exacerbar seu desejo.
Entre inúmeras circuntâncias de aproximação entre o amor e o demônio, parece ficar de lado o inchaço no tornozelo de Sierva, o que fora mordido pelo cão raivoso. Como ela é cuidada, a mancha vai desaparecendo aos poucos, salvo cuidado do Padre Delaura. O único amor não demonizado é o que não se concretiza, pois Delaura é retirado de suas operações na região. Sierva não pode ter nem seu amor, apesar de tantas ações estranhas e discutíveis que ela rege no decorrer do enredo.
Assim é a obra de García Márquez. Quem nunca leu, deve um dia ter uma oportunidade para isso. O rosto selvagem com que são pintados os personagens alivia a degradação do homem contemporâneo, já que colocá-lo na condição em que deve se encontrar futuramente parece muito mais suave do que ver toda sua derrocada. Dessa forma, reforça-se a ideia de que esse tipo de leitura reflete nossa realidade. Ainda mais quando percebemos que há muito mais demônios do que amores presentes em nossas vidas, sejam esses velados ou expostos.

7 de maio de 2010

100 postagens poéticas

Desde a semana retrasada, estou mantendo o Silêncio em Poema. A atividade tem sido bastante interessante, pois, como já dissera, minha veia poética nunca fora meu forte. De repente, passei a escrever e comecei a gostar de algumas produções que tenho executado. Como a média de um por dia tem sido mantida, imagino que nos próximos três meses eu deva chegar a cem postagens - o que seria um milagre pra que não é proficiente nisso.
Assim, defini uma coisa: ao chegar na centésima postagens, tentarei selecionar os 50 ou 60 melhores poemas para uma publicação. Claro que entrará o problema: quem vai publicar? Duvido que alguém se interesse, pois produtoras e editoras grandes querem autores grandes e rentáveis. Não creio me encaixar nesse perfil. Partiria para uma produção independente, algo que me motivasse a realmente publicar. Ainda assim, teria de selecionar os poemas.
Entra, enfim, uma proposta, leitor: gostaria de teu auxílio para decidir quais textos publicar. Tu entras no blog e deixa um comentário, algo do tipo "publicável" ou o que quiseres falar sobre o texto. Sabem como são poemas... Ora é difícil de identificar o que transmitem, ora são claros demais. Por enquanto, gostaria do gosto, daqueles que mais foi apetitoso ler. Seria muito agradável contar com a colaboração de todos.

10 de abril de 2010

Justificativas para a mania dos vampiros

Em mais um lapso de vontade de comprar livros, adentrei a Saraiva do Praia de Belas ontem. Depois de muito pesquisar - e cansar a Bibiana, que recém saíra do trabalho -, vi um livro que cabia no meu bolso e de temática interessante: Imortal: contos de amor eterno. Li a contracapa e a maioria dos contos se voltam para a questão vampiresca. Isso me fez lembrar as apresentações de trabalho de meus alunos de 1º ano, sobre Literatura e Cinema, em que a maior parte resolveu fazer sobre a série Crepúsculo. Agora há motivos fortes para compreender.
No prefácio da obra, a autora P.C. Cast, famosa por suas histórias fantásticas, tece alguma teoria bastante subjetiva sobre a paixão do público leitor pela série antes dita. Num de seus argumentos, ela explora a questão da imortalidade como um processo de conscientização do adolescente que está se inserindo no mundo adulto, tendo em vista que sua necessidade de saber os porquês da vida extrapolam, muitas vezes, as respostas que o mundo tem a oferecer. Aí que nos deparamos com a insistente entrada de adolescentes no mundo das drogas, no confronto direto com seus ditos superiores, com a vontade incrível de fazer uma viagem ou de simplesmente se isolar dos pais. Após essa provação, o cidadão retorna - quando retorna - um homem de novos conceitos, pronto para ingresso à vida adulta. É uma aventura mítica que se instaura.
Lembro quando estávamos na escola e um colega me disse: "se eu pular do viaduto da Duque (Viaduto Otávio Rocha), eu não me quebro." Não satisfeito com a reação dos demais, foi efusivo: "tenho certeza!". Naturalmente, ele nunca tentou tal fato. Não que eu saiba, ao menos, já que faz horas que não nos falamos. O que interessa é esse transcendentalismo exacerbado que um cara de 16 anos buscou por um instante. Provavelmente, hoje em dia não teria tal reação, tal vontade ou até tal argumento. De qualquer forma, num período da vida, já se imaginou mais do que ser apenas o que a física expunha. Quando era menor, sonhava voar. Nunca num avião ou num paraglider: o corpo faria isso. Ao melhor estilo Super-Homem, inclusive. Superar fronteiras distantes, avançar pela estratosfera e não mais identificar pessoas quando olhar o mundo. Seria o mesmo que acessar o Google Earth no computador, mas ao vivo.
O tempo passou e não pude fazer isso na realidade. Uma pena. Ao menos nesses sonhos somos capazes de seguir adiante. O que P.C. Cast diz tem a possibilidade de aproximar essas questões entre os leitores e seus vampiros favoritos. Não podemos esquecer, no entanto, que tudo ainda faz parte de um universo mágico, da formação do nível abstrato do pensamento e que - (in)felizmente - não precisamos morder pescoços por aí.

3 de abril de 2010

A menina com a lagartixa

Antes de ver o Shutter Island, passeávamos pelo Barra Shopping. Além de ter sido perseguido por três alunas e uma comparsa, lanchado no McDonalds e visto uma roupas, fomos à Livraria Saraiva. Lá, no meio de tantos lançamentos, um livro me chamou a atenção: A menina com a lagartixa, de Bernhard Schlink. No final do ano passado, já lera O outro, desse autor. Como já havia gostado, li essa nova obra numa sentada - ou deitada -, na sexta pela manhã.
O enredo é de uma dramaticidade muito sensível. Um menino que mal sabe do trabalho do pai, apesar de frequentar seu escritório; uma mãe que apenas reclamava da vida, após a decadência social. O curioso era a reclamação a respeito de uma certa menina judia. Quando menino, nem sabia o protagonista o que era uma menina judia. Contexto: Alemanhã, início da década de 50. Pai era juiz da região onde moravam, e ajudava os judeus. Fora punido por si próprio ao encaminhar para a morte um companheiro: álcool e posterior morte foram sua solução. A mãe não desenvolvia frases complexas com o marido ou com o filho. No antigo escritório, depois na nova casa e, após a morte do pai, no seu quarto em uma pequena cidade onde estudava, o quadro de René Dallman, A menina com a lagartixa, rondava.
A busca que a personagem principal faz é descobrir a origem daquele quadro que tanto o fascina. O que se descobre no decorrer do texto é que o caminho realizado para tal feito determinará quem realmente é aquela pessoa, o que foram seus pais, quais foram as ações que identificaram quem realmente eram, tanto a si quanto aos parentes. Os judeus aparecem com pouca identidade no início e terminam com real importância. Assim, temos uma obra que não se prende apenas ao que anseia uma personagem, mas a todo um contexto sócio-cultural que ilustra o ser humano como alguém perdido no mundo, que não pode buscar algo mais senão através da busca por seus reais valores. Numa certa altura da obra, o então menino resolve que quer conquistar uma bela garota - mas nem paixão sente por ela. Não houve ainda a identificação do que é amor ou paixão. Quando concretiza o objetivo, ela nada mais é que nada, trazendo enojamento ao rapaz, que a deixa partir após sua primeira noite amorosa. Ele só conseguirá se reconhecer após dar um destino ao quadro, que o perseguia pela incessante vontade de saber quem realmente era.
Vale lembrar que as obras de Schlink giram sobre o eixo da identidade. Em O leitor, o guri que lia os livros para a mulher mais velha também não sabia quem realmente era, até a punição que a mesma recebe por seu crime de guerra, no julgamento de Nuremberg; em O outro, o marido segue atrás de um amante da finada mulher para conseguir identificar o que foi a relação de ambos pelos anos que sucederam; por fim, em A menina com a lagartixa, o envolvimento da personagem se dá através da identificação de soluções para sua vida. Falando em vida, é esse o caminho que trilhamos pelo tempo que temos: reconhecer quem somos para partirmos em busca de nossos ideais.

21 de fevereiro de 2010

Leituras da velhinha finada

Quando era pequeno, um dos primeiros livros - que não eram necessariamente infanto-juvenis - que li foi O analista de Bagé, do Luís Fernando Veríssimo. Deveria ter uns oito ou nove anos. Não entendia muita coisa sobre as expressões utilizadas pelo analista, ou as piadinhas envolvendo os corpos e as mentes das personagens, mas ria da forma hilária com que a personagem se pronunciava. Ria sozinho. Talvez um candidato a frequentar aquele divã coberto por um pelego.
Nos últimos tempos, não o li mais. Havia visto uma crônica na Zero Hora, há alguns anos, sobre a morte da velhinha de Taubaté. Aquela famosa senhora que acreditava em tudo que os governantes prometiam e cria na mudança do país. Quando as coisas deixaram de ser promessa e viraram realidade, a velhinha morreu. Ela vivia de crenças, não de atitudes. Assim, não mais seria útil sua vida literária. Ou não seria?
Depois de muito tempo, vasculhei alguns livros mais antigos em minha biblioteca e achei A velhinha de Taubaté. Reli. Hilário. Fiquei rindo sozinho em algumas crônicas. Anexo, novas histórias do analista de Bagé. Muito boas. Relembrei da Lindaura, a famosa secretária. Os doentes sempre foram seres que traziam problemas grandiosos, mas que o analista lançava como frescura e que tinham de parar com isso. Algumas coisas até me fizeram lembrar de quando eu frequentava análise: repetições, sonolência, contudo não havia quem dissesse pra que eu acordasse. Se eu fosse ao consultório do bageense, talvez saísse "bem" na primeira consulta.
Essa objetividade de tratar com o próximo aproxima vários elos: a velhinha, agora finada, estava distanciada disso, vivendo num mundo subjetivo; já o analista, extremo oposto, não conseguia analisar o pessoal. A miscigenação desses dois seres trariam um ideal para as pessoas? É possível, ainda mais se sempre formos tratados e nos realizarmos com bom humor.

19 de fevereiro de 2010

Narrativa poética

Há poucos dias, falei sobre minha dificuldade com leituras poéticas. Como a persistência para algumas coisas ainda me é uma virtude, resolvi tentar a leitura de A duquesa e o céu, de Sérgio Lemos. É daquelas obras que mistura a narrativa à linguagem poética, buscando uma miscigenação nem sempre favorável à leitura. Poucos são os autores que conseguem isso e, aparentemente, o finado Lemos consegue.
Como não consegui ler o livro por completo - estava no litoral, naquela situação exposta noutro post - me atenho à linguagem: a busca constante pelas rimas nunca foi a consagração de um poeta. Se fosse assim, Mário Quintana e Carlos Drummond de Andrade seriam pouco lidos. Os autores contemporâneos não teriam vez. Alguns acho até que não tem mesmo. Mas existe gente que lê o Carpinejar. Ele rima pouco. O Luiz Coronel rima de vez em quando. Os pseudo-poetas geralmente criam rimas pobres. Para quem não lembra, a rima pobre é aquela em que tu rimas uma palavra com outra de mesma classe gramatical. É mais fácil rimar cochilar com almejar do que vento com lento. Com uma técnica mais apurada, Sérgio Lemos aproveita-se de certos pontos para a criação de rimas ricas, não ficando preso ao modelo de que se servem muitos autores.
Outra coisa interessante da narrativa poética é a construção de um ambiente subjetivo muito forte. Quando se destaca que as personagens devem se deslocar de localidade, devido a um grande problema que houve onde moravam, eles têm de subir um morro. Essa subida se dá por inúmeros percalços, que acarretarão em mortes, mas em clemência também. Como se estuda mais a linguagem do que a construção narrativa no texto, o ambiente é bastante imaginativo, fazendo com que o leitor inclua sua vivência no conteúdo da obra. A aproximação do céu, benévolo momento da passagem da vida, destaca que a saída é um final bom, feliz para quem lê. Assim, deixa-se de lado a ideia de que só os problemas fazem a vida da pessoa, e sim a redenção se tem como peça fulcral ao final da narrativa.
De textos como esses, esperamos diversos resultados. O mais provável deles é a dificuldade de leitura, pois não é fácil de lê-lo. Não basta apenas a persistência para ler o livro, entretanto a atenção e a admiração pelo estilo devem preponderar. Espero que até o fim das férias eu também entre nessa.

18 de fevereiro de 2010

Na onda das aventuras fantásticas

Enquanto a gurizada se diverte com as séries Crepúsculo, Harry Potter e derivados, mantive minha rotina de leituras voltada temporariamente para essas aventuras fantásticas. Presenças funéreas, personagens monstruosas e cenas de ação intensa fazem parte da obra A mão que cria, de Octávio Aragão.
O enredo é bastante curioso: após um colapso na Terra, uma explosão na gélida Rússia, pessoas que morrem viram zumbis, com força triplamente superior ao que tinha antes. Experimentos realizados na França desde o século XIX, a partir da abertura científica do prefeito de Paris e posterior presidente francês Julio Verne, criaram os homens-golfinho. Os humanos puros, digamos, tornaram-se meros coadjuvantes: enquanto os zumbis tentam destruir os homens, os híbridos tentam salvá-los, ainda mais para serem aceitos no meio. A obra trata sobre preconceito, ciência, relações interpessoais, além da constante ideia de se revelar tudo através de personagens distantes (?) do homem.
A intensão de refletir sobre quem é o homem através da ótica do não-humano não se observa com tanta intensidade. Há, mas em menos conflitos psicológicos ou meras reflexões, como no caso de Anax, do livro Gênesis, discutido neste blog. Aproxima-se realmente das obras mais lidas pelo público, apesar de sua profundidade não ser tão grande quanto em outras obras. Deve-se considerar, porém, que é um livro de 160 páginas, nem de perto das cerca das 3000 que os livros da J.K. Rowling somam ou os 1000 da Stephenie Meyer. Ainda assim, a observação da realidade de uma humanidade desacreditada e perdida é um dos focos do texto.
Nessa leitura, pensando um pouquinho sobre esses mais vistos pela mídia e de apelo popular, vê-se o que todos querem de um texto ficcional: que seja brusco em seu enredo, causando emoção; que contenha personagens sensíveis, para a catarse; que tenha um final apoteótico, por um lado para não pensar, por outro para afirmar suas próprias certezas. Não é nenhuma crítica contundente, pelo contrário: é o que todos desejam. Assim, a obra encaixa-se num paradigma de leitura que a promove, não sendo apenas um mero livro publicado.