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9 de janeiro de 2011

Nathalie X: o X da questão em cada narrativa

Sempre gostei de romances policiais. Na verdade, muito mais que policiais, histórias de mistério, em que se descobre a situação de um crime depois de inúmeras pistas deixadas e descobertas no texto. Um mundo imaginário permeia nossa mente até que a resposta chega - muitas vezes distante do que esperávamos.
Contradizendo isso, a obra O destino de Nathalie X e outras histórias marca um tipo de policial que não se baseia necessariamente na busca por um final apoteótico ou dotado de suspense: marcam-se diversos relatos de pessoas que viram, presenciaram ou suspeitaram de algum crime - o suficiente para montar a narrativa. Sendo assim, nos contos apresentados por William Boyd, há a seguinte situação: um crime foi executado; pessoas viram algo; compila-se os dados e a história está pronta. Há uma certa frieza na narrativa, o que torna a obra até certo ponto desgostosa, mas não menos curiosa para saber qual é o ponto de vista do narrador sobre os ocorridos.
Uso como exemplo o texto N de N, a narrativa mais curta presente. Fala-se sobre uma personagem nascida no Laos, que teve um determinado tipo de vida e acabou morto atropelado por uma bicicleta. Naturalmente se diz sobre o que ele fez, a obra-prima que escreveu, o sonho de morar em Paris, mas meramente descritivo, sem qualquer movimento de ação no texto. Sendo assim, aquilo que se espera de um texto policial se perde em pouco tempo.
Há amantes das mais diversas literaturas perdidos por aí. Claro que o gosto de cada um deve ser considerado na hora de escolher um livro para leitura, mas volta e meia somos surpreendidos pelo que o texto nos apresenta. Fui surpreendido novamente - apesar de negativamente - e julgo ser necessário continuar a incessante busca por um texto que seja o ideal para nós. Alguns autores já me deram esse prazer, mas William Boyd infelizmente não foi um deles.

8 de janeiro de 2011

Dez (quase) amores e (centenas de) risos

Ler obras da Cláudia Tajes está virando um pequeno vício, que venho cultivando desde Louca por homem. Pequenas cômicas tragédias na vida de uma mulher que busca o encontro com a felicidade são as tônicas de obras que abrangem muito mais do que o perigo dos relacionamentos amorosos. Isso se comprova na obra citada, em A vida sexual da mulher feia e Dez (quase) amores.
Maria Ana é uma mulher que, desde tenra idade, sofre com as desilusões amorosas. Mágico de circo, cardiologista e pintor são alguns dos tipos masculinos que penetram as dificuldades da personagem. Visto que no início da obra a narradora já expõe sua aversão por determinados tipos masculinos, presume-se que dificilmente ela seguirá seus próprios requisitos ou encontrará alguém à altura de seu desejo. No entanto, no decorrer da narrativa, os problemas a tornam cada vez mais suscetível aos homens que casualmente lhe aparecem, mantendo relações esdrúxulas, mal resolvidas e - por que não? - altamente desamorosas.
É interessante perceber, no entanto, que, por trás de uma mulher que não consegue encontrar o amor ideal, está uma jornalista formada, que desempenha suas atividades com perfeição; tem uma vida social bastante razoável com família e amigos, que prontamente a atendem ou ela a eles; embeleza-se muito pelos homens que encontra, mas não se menospreza perante as dificuldades encontradas. Sendo assim, é um protótipo perfeito do que observamos no cotidiano: mulheres mais ativas, mais fortes, que trazem seus ideais para serem praticados.
Uma obra como essa é passível de inúmeras risadas. A expressão determinada pela autora mostra uma ironia simples, mas dotada da mais alta complexidade quando relata o envolvimento amoroso. Dar errado numa relação é algo da vida, mas fazer com que várias pessoas riam da desgraça alheia - que poderia ser a nossa própria - é coisa de bons autores.

5 de janeiro de 2011

O mito do eterno retorno ou a busca de si em cada um?

Volto a escrever no blog pra tratar de algo que me dá muito prazer. Li mais uma obra do Bernhard Schlink. Dessa vez, perdi-me em tempo lendo A volta pra casa, o romance mais longo do autor, mas não menos impetuoso e repleto de buscas infinitas sobre si próprio. Termino de ler a obra dele com a sensação de que gostaria que tivesse produzido ao menos mais umas 20 obras. Acho que nunca gostei tanto de um autor quanto desse alemão velho.
O enredo da história se faz a partir da leitura da obra Leituras leves e divertidas, que os avôs de Peter Debauer compilam, a partir de inúmeros originais que lhes são enviados. O gosto do menino Peter pela leitura se expande ao ler aventuras relativas à 2ª GM, apesar de os compiladores dizerem que não deveria ler uma página do que ali estivesse. A vontade foi tanta que chegou aos seus olhos a história de Karl, um antigo guerrilheiro que fugia das consequências da derrota alemã e retorna à sua antiga casa, revendo a esposa. Esse último detalhe, no entanto, é omitido, o que faz com que Peter comece uma busca grandiosa por saber a real história daquela personagem. Enquanto a narrativa mostra todo o crescimento psico-afetivo e intelectual do leitor, uma busca desenfreada por saber quem é seu pai e qual a sua origem permeia o texto.
Novamente, a obra do autor expele situações de beleza única. A vontade de encontrar os resquícios de um passado nebuloso o tornam obsessivo, contudo lúcido para todas as conclusões. Ao descobrir quem é seu pai, um rearranjo na narrativa questiona o leitor: de que vale o passado se as impressões para seguir adiante se prendem ao presente? Será que o que somos é determinado por ações que já nos transformou em quem se está ou a possível modificação do futuro se dará pelas atitudes que queremos em relação aos demais? Num jogo de ida e volta, de presente e passado, numa mente que, em primeira pessoa, discorre sobre sua criação, suas leituras e suas frustrações, a conclusão que Schlink nos permite chegar amplia o horizonte da existência de cada ser: somos aquilo que nos forneceu o passado, mas angariamos um futuro a partir de nossos desejos. Ou, como diria uma das máximas presentes na obra O pequeno príncipe, "te tornas responsável por aquilo que cativas".
Se a nossa existência dependesse apenas de nosso passado, nunca um futuro chegaria com possibilidades melhores. Afinal, cada um teve seus atos e suas consequências. Infelizmente, nem tudo é o que desejamos, mas aquilo que realmente queremos também deve se fazer presente. Num ato de coragem e curiosidade, Debauer buscou o encontro com o passado. No entanto, seu maior desejo foi, singelamente, voltar para casa. Nós também queremos nosso lar calmo e sereno, para que, ao voltarmos, notemos que toda nossa busca por uma vida melhor tenha sido reflexo de atitudes significativas e compreensivas. Somos também tudo aquilo que queremos ser. Bem como também queremos voltar pra casa.

1 de julho de 2010

Bia Tognazzi e suas desventuras ortodoxas

Mantive contato, durante a semana passada, com o Gustavo, da Editora Dublinense. De um papo bastante agradável via e-mail, em que falei sobre minha vontade conhecer algumas obras da editora com fins de veiculação entre meus alunos. Os temas das obras eram interessantes. Recebi quatro obras: Contas de mais-valia, Sanga menor, Crime na Feira do Livro e um que muito me interessou - já li e recomendei - chamado Moinhos de sangue.
Nessa obra, uma socialite porto-alegrense de 37 anos anseia um casamento. O problema eram seus inúmeros pré-requisitos: ricos, de bom sobrenome, educados e que a mantivessem acesa por muitos anos. Tudo bem que, ao revê-los, ela resolve desistir de encontrar um príncipe encantado e parte para aquele que melhor lhe sairia como marido. A pressão exercida pela mãe, a mais bela mulher de sua época na sociedade gaúcha, pela sobrinha, vista agora como a que mais chamava atenção, tirando o lugar dessa socialite, faz com que ela busque um par definitivo para retomar sua posição. Bia, a personagem principal, tem adoração por Ualdisnei, com quem não deseja casar, pois, além de ter um nome considerado bizarro, falava menas. Preconceito linguístico escancarado. De qualquer forma, ela aplaca Vitor Hugo, casado então com uma bêbada que dava vexames o tempo inteiro. Para tirá-la do caminho, resolve matá-la. A narrativa é toda montada através da ótica de Bia, que fará com que todos caiam em suas artimanhas.
Mais interessante que isso é a forma como Bia Tognazzi dialoga com seus próximos. Soninha, sua melhor amiga desde o colégio e patroa dos pais de Ualdisnei - o que promoveu o encontro entre Bia e Ual - é a fiel escudeira. Intitulam-se Maligna e Maléfica. Soninha, porém, de Maligna não demonstra nada: tem um casamento regular com Cláudio, dois filhos, cuida da casa. Bia não poderia ser assim, já que seu perfil é extremamente agitado, praticamente bipolar. Quando Bia mata a esposa de Vitor, ela não dá nem sinal de arrependimento, tanto que sua amiga nem desconfia de quem fora o assassino. Após, com as mortes posteriores - e do jeito que foram - Maligna desconfiará e acusará Bia, que mal dá bola pra isso e ainda chantageia Sônia.
As atitudes de Bia não têm fim trágico para ela. Num local em que se importa muito mais com as aparências e seus níveis sociais, não há motivo para querer buscar os reais culpados de crimes totalmente abafados pelos realizadores. Assim, o que Bia Tognazzi busca é atingido com êxito, tendo um casamento de sonhos, mesmo não amando ou sequer suportando o marido. Seu desejo era Ual, mas até esse ser ela acaba atingindo. O desatino pela posição gera uma série de desventuras, o que acarreta certo humor ao desenrolar da obra, pois é dessas cretinices que ela cria, através de um desbocamento voraz, que a faz forte e capaz de realizar as ações. Vira ortodoxa, pois o que faz pela primeira vez ela fará mais vezes, quantas forem necessárias. A personalidade de Bia é domada pelos instintos mais puros, porém realizados de maneiras mais trágicas.

Da causa do gênero


Na tarde de quarta-feira, na UFRGS, durante a apresentação sobre teorias feministas dentro da literatura, certas alusões inquietaram os educandos. Esse tipo de crítica gira sobre a formulação de homem e de mulher perante a sociedade, transcorrendo seções como a androginia, o homossexualismo e a transsexualidade.
Interessante perceber que tudo nasce da questão física, diriam os antigos teóricos. Nasce-se com um sexo, masculino ou feminino. Depois disso, a ação que o meio provoca, somada à reação que o indivíduo terá acarretará seu gênero, masculino ou feminino. A partir disso, seus desejos passam a aparecer, já na adolescência, o que denotará, por fim, sua sexualidade, sua orientação sexual. Enfim, um ciclo que parece imutável aos olhos do senso comum – mesmo que a maioria desconheça esse tipo de relação.
Como analisamos a teoria de Butler, além de idéias que foram lançadas pelas questões de masculinidade e feminilidade na arte, creu-se na seguinte binonímia: homem e mulher, em si, não existem. São meros signos lingüísticos (a soma de um significante – a imagem veiculada pela palavra – ao seu significado – ao que conhecemos conceitualmente sobre tal) que se travestem na sociedade para reger o que cada um deve ser. Um olhar mais criterioso fará com que observemos que nem toda a apropriação de ser homem ou de ser mulher realmente denota o que somos.
Na literatura, isso é muito evidente. Perguntado sobre quem seria a musa inspiradora para a feição de Madame Bovary, Gustave Flaubert afirma que essa personagem ces’t moi. Ou seja, era ele mesmo. Que bendito fruto é esse que tramita entre o ser homem e o ser mulher numa sociedade fechada e de valores ortodoxos? Na verdade, todos nós. Flaubert seguiu apenas uma visão do que seria a mulher através de sua ótica, criando uma obra tão profunda que é considerada o marco inicial do realismo no mundo. Diversos autores de literatura infanto-juvenil também fizeram o mesmo, tais como Pedro Bandeira, Wagner Costa e outros, e mesmo assim não se viram colocados ou tratados como mulheres por conta disso.
As pessoas têm muita dificuldade para compreender o que é ser algo ou alguém perante o mundo. Sabe-se, outrossim, que o preconceito corre como um vendaval e destrói pessoas pela falta de informação e a posterior discriminação. Somos todos, em âmago, homens e mulheres em busca do encontro consigo mesmo, sem determinar o que é melhor ou pior. Basta que saibamos quem realmente somos.

Leituras adjacentes

Vale a pena ler, por mais longo que seja. Sou assinante da revista Amálgama e volta e meia seguem artigos muito bons. Noutra hora, postarei um sobre futebol e nacionalidade.

IGARAPEBA: UMA FÁBULA NORDESTINA
por Fernando da Mota Lima – Por duas vezes Igarapeba foi arrancada da sua vil e sofrida obscuridade. A primeira, no início do remoto ano de 1964; a segunda, no dia 29 de junho deste ano, quando entrou no noticiário estadual e nacional graças às enchentes que devastaram muitas cidades e vilas de Pernambuco e Alagoas. A primeira data está associada à passagem de Antonio Callado por Igarapeba, então assaltada por um clima de mudança e agitação política absolutamente inéditas na sua história sem história. Callado veio do Rio de Janeiro para escrever uma série de reportagens sobre a tensa e potencialmente explosiva situação política de Pernambuco, sobretudo na região dos canaviais ainda amarrados a relações de produção e trabalho típicas do Brasil colonial. As reportagens, mais tarde enfeixadas no volume Tempo de Arraes, foram publicadas no Jornal do Brasil poucos meses antes do golpe militar que sufocou as transformações em curso no país e particularmente em Igarapeba.




Na reportagem, depois capítulo de livro, intitulada “Fábula da Igreja e do Partido Comunista”, Callado descreve a atmosfera de tensão social liderada pelas duas forças empenhadas na hegemonia do nascente movimento dos trabalhadores organizados em sindicatos rurais: a Igreja Católica, tradicional aliada da oligarquia regional, e o Partido Comunista orquestrado pelo combativo Gregório Bezerra. Callado foi a Igarapeba entrevistar o padre Edgar Carício, líder do sindicato rural na região que compreendia a vila de Igarapeba. Citando o próprio Callado, o encontro ocorreu “… em Igarapeba, um fim de mundo a 175 km de Recife, à beira do grandioso e pérfido Rio Piranji”. O adjetivo grandioso entra na frase, convenhamos, como um cochilo retórico do admirável romancista. Pérfido, com suas águas contaminadas pela calda das usinas e da miséria ribeirinha, o Piranji sempre foi; grandioso, apenas quando seu volume ameaçador transbordava durante as enchentes ocasionais. É o que agora volta a acontecer, só que num grau de devastação sem precedente.



Liguei a TV ontem (29) à noite para ver o noticiário sobre as enchentes na tradicional zona canavieira de Pernambuco. De repente, vejo Igarapeba enquadrada em planos gerais filmados de um helicóptero. Em seguida, cenas filmadas na própria vila: as águas do rio grandioso e pérfido rolando barrentas, os vestígios da ponte destruída, único ponto de conexão entre a vila e a estação ferroviária, que há muito não acolhe trens, e a estrada sinuosa e lamacenta que conduz à rodovia e à “civilização” pernambucana. Por fim o povo, o mesmo povo da minha infância. Vê-lo na TV, com seus corpos retalhados pela miséria e o obscurantismo daquele mundo sem história é repor na minha consciência e memória o pior de minha infância. Quando Antonio Callado passou por Igarapeba, eu, ainda menino, vivia já no Recife, onde vim estudar com toda a minha família. Sendo assim, nada sei em termos de experiência vivida de tudo que aconteceu naquele remoto e turbulento ano do governo Arraes.



O que sei, ouvindo o repórter da Globo enquanto a câmera enquadra planos da vila, é que três coisas cresceram em Igarapeba desde a esquecida passagem de Antonio Callado pelas suas poucas ruas: a população, a miséria e a força destrutiva do pérfido Piranji, agora justamente grandioso. À fábula ironicamente esboçada nas páginas das reportagens e do livro de Callado soma-se uma outra, ainda mais terrível: a da inércia social e política que há séculos castiga uma região assolada pela miséria e o desamparo das gentes. A enchente traz para Igarapeba e sua população irreparavelmente sofrida apenas essa dádiva divina: Igarapeba está na Globo, Igarapeba enfim existe para o Brasil, talvez para o mundo que sopra histericamente suas vuvuzelas para animar em escala global uma Copa do Mundo que tem mais ruído do que futebol.



Por fim, um outro sopro de memória acionado pela reportagem da Globo. Custa-me ainda compreender o arbítrio da memória humana que recria num passado tão brutal apenas os traços nostalgicamente transfiguradores da realidade. Aludo, noutros termos, aos processos psíquicos que nos transportam de volta à infância vivida entre escravos, desvalidos e tantas outras formas brutais de opressão selecionando desse mundo submerso apenas as memórias de beleza e gratificação egocêntrica. Penso, por exemplo, na célebre passagem de Minha Formação na qual Joaquim Nabuco, nosso grande abolicionista, recria nostalgicamente sua infância de senhor de escravos; penso nos meus parentes e amigos provenientes de Igarapeba, que organizam anualmente um Encontro dos Amigos de Igarapeba para celebrar um passado que idealmente recorta apenas a memória conveniente à nossa natureza egoísta. É por essas e outras que cultuamos o mito da infância feliz. Em contraponto, penso em Infância, de Graciliano Ramos, obra rara na grandeza com que investe contra nossas entranhadas mitificações do passado e da infância.



Passada a enchente, que deixará rastros de miséria ainda maiores do que aqueles secularmente enraizados na vida dos igarapebenses, Igarapeba afundará novamente na sua vil e sofrida obscuridade. Seus poucos privilegiados, os que de lá saíram para viver uma vida melhor, certamente renovarão o encontro anual no qual confraternizam por um dia na igrejinha da vila com os humilhados e ofendidos condenados a mofar naquela Sibéria tropical. Como a fábula da miséria nordestina se prolonga através de séculos sem vestígios de solução aparente, é provável que no futuro próximo sobrevenha outra enchente de semelhante magnitude para repor Igarapeba no noticiário do Brasil, talvez do mundo.

28 de junho de 2010

Todos já sabiam

Um local em que tudo é voltado para o mais simples. Uma cidadezinha do interior, poucos habitantes. Um clima quente, um povoado em que todos se conhecem. Essa é a ambientação de Crônica de uma morte anunciada, de Gabriel García Márquez. Todos já sabiam o que iria acontecer. Nada fizeram.
Um cidadão que tem seu nome veiculado desde que uma moça espancada afirma ter sido ele a maltratá-la faz com que toda uma geração se comprometa com o ódio e assuma a situação de não deixar a honra de lado. Há inúmeras facções da sociedade que ainda primam por essa tola e estúpida situação. Se todos soubessem que quem realmente fez aquilo com a mulher não foi o prometido à morte, surpreender-se-iam tanto que não fariam nada contrário.
Num momento em que a busca pela solidariedade ainda é uma constante na vida de todos, esse tipo de ideia vai na contramão. Naturalmente a obra de García Márquez tem muito mais a aprofundar do que isso, mas o fato de eu estar estupidamente preocupado com o jogo do Brasil contra o Chile me impede de pensar em aprofundar esses pensamentos. Aliás, todos já sabiam: vitória do Brasil.

22 de junho de 2010

Tom Bombadil

Li ontem As aventuras de Tom Bombadil. Como eram duas traduções, li a literal, independente da forma, preferindo os versos brancos e a técnica mais narrativa para compreender um pouco dessa personagem. Durante os 16 poemas presentes, procurei me manter ligado numa sequência histórica de fatos literários. Pena que justamente isso não havia.
A função do poema lírico tem seu fim em si mesmo. O épico é aquele que apresenta uma história sequencial em casa parte ilustrada, ainda dividido em cinco principais: apresentação, invocação, dedicatória, narrativa e epílogo. Nos poemas sobre Tom Bombadil, há uma série de aventuras as quais o personagem se encaixa, além de outros em que ele conta sobre mitos e lendas da Terra-Média. É um livrinho bem curioso, de fácil assimilação e que busca refletir sobre os acontecimentos anteriores às grandes narrativas desse mundo, colocadas no Silmarillion e no Senhor dos Aneis.
Achei muito interessante o poema sobre a Princesa Mi e a outra princesa que ficava num poço de cabeça para baixo. As duas nunca se veriam, pois a "afogada" não podia ver a beleza de Mi, já que ansiava ser tão ou mais bela que a outra. Assim, as duas se sentiam apenas pelos pés, numa imersão provocada pela imagem da irrealização. Afinal, o desejo pelo que se não pode ter já é uma busca sem vitória, pois se aceita desde o início que nada será como se busca.
Apesar das várias narrações, as feições mais belas do texto se prendem às descrições do ambiente e das personagens. O aparecimento do Homem-Salgueiro, do próprio Bombadil, da Princesa Mi e do Troll configuram boa parte da rede de personagens que se destacará nas obras supremas de Tolkien. É uma boa leitura pra quem se interessa pela assunto e quer conhecer como ocorreu a formação das lendas da Terra-Média. Só não busquem muitas aventuras por lá.

9 de maio de 2010

Do (futuro) doutorado

Na sexta-feira passada, minha Tia Eni, como de costume, me deu um dinheirinho como presente de aniversário. Ela me dissera pra gastar com o que eu quisesse, da mesma forma doce que me dizia quando era pequeno, ao pegar um brinquedo ou um jogo de videogame e ela dizer pra que eu aproveitasse bem. Assim foi feito: fui à Saraiva do Praia de Belas. Leitor, deves pensar que sou um fanático pela Saraiva. Em termos, sim. Se a Livraria Cultura não fosse tão longe ou se a Palavraria tivesse umas promoções bem boas, de repente frequentava outras.
Mas não é sobre isso que o post trata. Comprei dois livros do Bernhard Schlink, pagando a bagatela de R$ 70. Há muito nao fazia isso por livros. Tanto que minhas últimas aquisições foram de livro em lojas de 1,99, aqueles mesmos que o autor Nei Duclós veio a me falar noutra hora. Na última leva, comprei 14 livros e paguei só R$ 35. É um contrasenso horrível. De qualquer forma, completei minha coleção de obras do Schlink. Ao menos as traduzidas. Caso tu tenhas lidos as postagens anteriores, lembrarás de que tratei sobre O outro e A menina com a lagartixa. Pois é, são dele. Agora adquiri O leitor, aquele mesmo do filme, e A volta pra casa. Pretendo avançar nessas narrativas até a metade do ano.
Justamente há um motivo claro pra isso: estou pensando seriamente em tratar sobre o herói degradado e sua aventura mítica nas obras desse autor. Talvez o tema seja meio singelo e aí mora meu receio. Caso seja muito pouco pra avançar nos estudos acadêmicos, terei - ah, que dor! - de tratar sobre as letras de metal... Acho que seria um trabalho muito bom de fazer, delicioso mesmo, mas muito mais difícil. Como professor, o trabalho consome muito tempo e, pra fazer uma boa produção, teria de rever meus horários pra tentar algo melhor. O problema é que teria de reduzir horas, acumular tempo na faculdade com leituras, projetos de pesquisa, montagem da tese. Ainda há tempo pra decidir, ao menos.
A ideia para tratar no doutoramento é analisar a aventura mítica do ser humano em busca de uma identidade desconstruída pelo próprio homem na pós-modernidade. Isso é meio nebuloso para alguns, na teoria, contudo a prática nos mostra cotidianamente o que quero dizer: pessoas que não sabem o que querem da vida, processo de infantilização do adulto, entre outros. Tudo isso me interessa e a literatura explora muito bem cada elemento. Com um pouco de teoria, somada ao bom senso de meu futuro orientador, creio que seja possível chegar a uma conclusão que me garanta uma titulação que ainda não temos na família. Haja tempo pra que tudo isso se realize.

28 de abril de 2010

Alice e o fim da adolescência

Desde que soube do lançamento da versão de Tim Burton para Alice no país das maravilhas, tive muita curiosidade para vê-lo. Fui. Ontem à noite fui levando a Wonderland, a reconhecer os antigos personagens e toda a saga envolvendo Alice até o fim da adolescência. Apesar dos grandes efeitos especiais, das figuras perfeitamente expostas naquele contexto, não é um filme impressionante - apesar de bom. É muito mais a exposição sobre o fim da infância do que qualquer outra coisa.
Alice é pedida em casamento por um lorde inglês. Na ânsia de não saber o que fazer e com inúmeras pessoas dizendo como ela deve proceder, foge. Fuga, aliás, derivada pelo aparecimento do coelho de terno, que a guiará de volta ao País das Maravilhas, que visitara ainda criança. Essa ida a fará se redescobrir e voltar ao mundo não mais como a frágil, dócil e infantil Alice, mas como uma mulher de voz e capaz de interagir no mundo dos negócios - até então desconhecido para o universo feminino, tendo em vista a tradição machista que este acarreta.
É interessante percebermos que o enredo se faz sobre as dificuldades de Alice em reconhecer o que é ilusório e o que é real; as andanças por um mundo que lhe parece fantasioso e que não se faz apenas assim. Cada aventura que passa, cada marca que lhe é registrada, tudo mostra que os movimentos e decisões são plenamente reais. O contato com a lunática de diversos personagens - vide Absolem, Chapeleiro Maluco, Lebre - a mostra a irrealidade das coisas, mas seus momentos de lucidez a colocam num ambiente favorável ao conhecimento sobre tudo que existe e que se deseja conhecer.
A adolescência é um marco na vida das pessoas justamente por ser a época em que não se sabe que caminho trilhar. Brincar ou beijar? Namorar ou ter só amigos? Assumir decisões ou delegar ao próximo? Ajuda de pai e mãe ainda necessária? Dentre essas questões, o que fica não é a retomada do que é subjetivo, individual: é a decisão correta, o melhor para o grupo, o bem estar social. Isso denota crescimento, tendo em vista que o homem é um ser extremamente social. Não basta apenas ficar preso aos seus ideias - como diversos adultos fazem - sem compreender que o próximo sempre será afetado pelas suas decisões. É um crescimento proporcional às várias migalhas do pão do crescimento que Alice precisa em Wonderland.
Há, portanto, um link diretamente ligado entre o Submundo e a adolescência. Os passos de Alice não são meras caminhadas literárias ou fílmicas, dotada de percalços e adversidades que limitam suas decisões. Nada disso: é a porta para o crescimento, para o rompimento da visão infantil e para o avanço do estado natural das pessoas. Perde-se a Alice criança e ganha-se a Alice adulta. Uma troca e tanto.

26 de abril de 2010

Nova exploração

A análise de poemas nunca foi meu grande foco como teórico da literatura. Até porque nunca fui um grande fã da mesma. De um tempo pra cá, porém, ando meio irreconhecível: mantendo leituras durante o tempo de trabalho, conseguindo escrever mais do que em anos não fiz. Eis que surgiu uma nova empreitada: Silêncio em poema. Além deste blog e de A hora de José Ramiro - que está mais lenta do que o dia de Naziazeno, em Os ratos -, resolvi testar um pouco dessa vertente. Pensando na minha produção, é praticamente vanguardista. Espero, no mínimo, que essa produção renda um pouco mais do que nosso lento e mal amado José.
Se quiseres conhecer um pouco mais, clica aqui!

23 de abril de 2010

Nos próximos dias...

Resolvi explicitar, nos próximos dias, como deve ser minha tese de doutorado. Um pouco arriscado, pois sempre há um aproveitador de ideias perdido por aí. De qualquer forma, verbalizar um pouco o que me ocorre mentalmente pode facilitar essa produção, que deve ser inovadora. Espero que ao menos esse objetivo seja atingido.
Misturar a literatura e o heavy metal é muito mais do que aproximar gostos por fantasias até certo ponto diferentes: é trazer à tona os perigos da intertextualidade, as conotações prováveis e malfadadas até então. A literatura, pelo seu poder catártico e transformador do pensamento da humanidade; o metal, a lírica densa de homens e mulheres que ansiam pela expressão e pela reflexão a partir de seus ditos.
De qualquer forma, a experimentação começará. Para que bem entendam um pouco sobre o tratamento das questões, exporei a tradução de algumas músicas que formam uma cadeia narrativa, a fim de explicitar a aproximação entre os dois lados. Sugiro que já vão adiantando um pouco seus pensares a respeito dessa questão, pois não será tão pouco o que deveremos avaliar.

10 de abril de 2010

Avanços a nível acadêmico

Como comentei no texto anterior, alunos meus apresentaram trabalhos sobre literatura e mais alguma coisa. Isso no caso do 2º ano, já que o primeiro apresentou sobre Literatura e Cinema e o terceiro apresentará nessa semana sobre Literatura Africana. De qualquer forma, alguns trabalhos foram tão bem elaborados que me deixaram realmente extasiado.
Dois, em particular, pela montagem e pela amostra, foram muito interessantes; outros pela temática e pelo quanto há para aprofundar o tema. Ideias como as expostas sobre Literatura e Animê/Mangá foram certamente profundas e passíveis de apresentação em nível de graduação. Claro que não houve a possibilidade de aprofundar sobre todos os desenhos selecionados, mas algumas coisas me chamaram a atenção: as representações orientais para Alice no país das maravilhas, Hamlet e sobre a história de Jack, o estripador - que, aliás, se relaciona com a história do Canibais, tendo em vista que Charles Darwin deu seu parecer sobre a condição desse imigrante alemão e o comparou ao famoso serial killer inglês. As questões de intertextualidade que envolvem os segmentos não demonstram uma mera reprodução dos clássicos textos, mas uma releitura ambientada através da cultura local.
Outro trabalho de muito interesse foi de uma dupla que falou sobre Literatura e Heavy Metal, pegando particularmente a banda americana Iced Earth. Já conhecia bandas que contavam histórias em seus álbuns, mas essa selecionada pelos guris traz músicas que releem biografias de personagens famosos em nosso imaginário, como o Lobisomem, o Drácula e até o Spawn, bastante famoso nos quadrinhos dos anos 90. Através de sua visão, a banda relança o olhar sobre tais personagens, a fim de identificá-los aos interlocutores como seres que ambientam mais do que o espaço literário, mas o musical também.
E por que isso ocorre? Entra em acordo com o que fora dito no post abaixo: o imaginário da adolescência exige conhecer até o irreconhecível. Buscar mais e reler espaços faz parte da mística do descobrimento. A constância da revisão faz parte da tentativa de conhecer o obscuro, o que não se terá frente à frente - a não ser por um surto ou por visões suspeitas. O imaginário corre solto, e só ele pode trazer as respostas desejadas.
Além desses, sobre Literatura e Adolescência - que é um campo muito vasto, cheio de questões psicopedagógicas, além das sócio-econômicas -, Literatura e Balé - pegando a questão da ópera e da narrativa sem falas -, Literatura e minisséries - uma das mais populares formas de transição entre texto e mídia -, Literatura e Internet - principal foco de publicação e dificuldades de mantenimento de autoria atuais, além do reaproveitamento de Dante Alighieri em inúmeras formas de construção. A gurizada foi realmente muito feliz nas escolhas e se saíram super bem! Parabéns!


3 de abril de 2010

A menina com a lagartixa

Antes de ver o Shutter Island, passeávamos pelo Barra Shopping. Além de ter sido perseguido por três alunas e uma comparsa, lanchado no McDonalds e visto uma roupas, fomos à Livraria Saraiva. Lá, no meio de tantos lançamentos, um livro me chamou a atenção: A menina com a lagartixa, de Bernhard Schlink. No final do ano passado, já lera O outro, desse autor. Como já havia gostado, li essa nova obra numa sentada - ou deitada -, na sexta pela manhã.
O enredo é de uma dramaticidade muito sensível. Um menino que mal sabe do trabalho do pai, apesar de frequentar seu escritório; uma mãe que apenas reclamava da vida, após a decadência social. O curioso era a reclamação a respeito de uma certa menina judia. Quando menino, nem sabia o protagonista o que era uma menina judia. Contexto: Alemanhã, início da década de 50. Pai era juiz da região onde moravam, e ajudava os judeus. Fora punido por si próprio ao encaminhar para a morte um companheiro: álcool e posterior morte foram sua solução. A mãe não desenvolvia frases complexas com o marido ou com o filho. No antigo escritório, depois na nova casa e, após a morte do pai, no seu quarto em uma pequena cidade onde estudava, o quadro de René Dallman, A menina com a lagartixa, rondava.
A busca que a personagem principal faz é descobrir a origem daquele quadro que tanto o fascina. O que se descobre no decorrer do texto é que o caminho realizado para tal feito determinará quem realmente é aquela pessoa, o que foram seus pais, quais foram as ações que identificaram quem realmente eram, tanto a si quanto aos parentes. Os judeus aparecem com pouca identidade no início e terminam com real importância. Assim, temos uma obra que não se prende apenas ao que anseia uma personagem, mas a todo um contexto sócio-cultural que ilustra o ser humano como alguém perdido no mundo, que não pode buscar algo mais senão através da busca por seus reais valores. Numa certa altura da obra, o então menino resolve que quer conquistar uma bela garota - mas nem paixão sente por ela. Não houve ainda a identificação do que é amor ou paixão. Quando concretiza o objetivo, ela nada mais é que nada, trazendo enojamento ao rapaz, que a deixa partir após sua primeira noite amorosa. Ele só conseguirá se reconhecer após dar um destino ao quadro, que o perseguia pela incessante vontade de saber quem realmente era.
Vale lembrar que as obras de Schlink giram sobre o eixo da identidade. Em O leitor, o guri que lia os livros para a mulher mais velha também não sabia quem realmente era, até a punição que a mesma recebe por seu crime de guerra, no julgamento de Nuremberg; em O outro, o marido segue atrás de um amante da finada mulher para conseguir identificar o que foi a relação de ambos pelos anos que sucederam; por fim, em A menina com a lagartixa, o envolvimento da personagem se dá através da identificação de soluções para sua vida. Falando em vida, é esse o caminho que trilhamos pelo tempo que temos: reconhecer quem somos para partirmos em busca de nossos ideais.

4 de março de 2010

Bela e Christine: apogeu da leve expressão

Gosto muito de trabalhar com duas histórias: A bela e a fera e O fantasma da ópera. São dois textos de exemplar figuração feminina, do quadro de avanço da mulher da metade do século XX em diante. Leva-se em consideração que há várias versões para ambas, incluindo os musicais, as versões trash e os desenhos de Walt Disney. Dee qualquer forma, a figura feminina dessas personagens sobrevoa a questão da expressão, a ideia de que a voz é de quem fala, realmente.
Na versão musicada da banda finlandesa Nightwish, The beauty and the beast relata o diálogo entre ambas personagens: a incansável busca pela realização amorosa deflagrada pela Fera, que verá refreada qualquer ação tendo em vista a negativa da Bela. Coroa sua decepção ansiando a eterna ovelha presente nela, cujo lobo não irá desistir de sua posse. Ela, contudo, explica ao ser que não o quer mal, apenas não pode ficar com ele, já que sua frieza e incompreensão, somadas à instintiva vontade de possuir, fecharam seu coração e nada mais se tiraria de lá. A voz feminina não é mero acerto da música: corrobora com a frequente valorização da mulher na sociedade atual. Ter voz não é simplesmente existir enquanto ser, porém existir socialmente, de forma ativa. Um lapso se dá, aparentemente, quando ela sugere estar presente com o outro para sempre; a leitura aprofundada revelará, no entanto, que as suas ideias devem ser eternamente presentes nele, já que ela o quer auxiliar a descobrir o outro lado de sua brutalidade: a redenção de sentimentos expostos e retribuídos.
Por outro lado, a banda finlandesa reaproveita as falas do musical The phanton of the opera para reproduzi-las em sua música. Christine, a protagonista, não enxerga a imagem do fantasma, mas assimila sua existência através de seu crescimento: o canto. Se levarmos em consideração que as manifestações artisticas são frutos da expressão única do indivíduo, dotadas de subjetividades e relações mundanas, perceberemos que o avanço da moça não é uma mera ação de um fantasma ou de um homem travestido disso, mas da capacidade interior de explorar os próprios sentidos. Não basta identificar um ser que dialoga com outro através da obscuridade ou da inexistência, pois com nada tem identificação a capacidade exclusiva de cada ser em se expressar. Ou seja: algo ou alguém pode ser o mote, o incentivo ou aquele que liga o botão para um máquina funcionar - este, no entanto, não substituirá a ação referida pelo que a executa, mantendo o distanciamento entre os dois seres. Logo, um é propulsor; o outro, o executante. Se o fantasma era o propulsor, a voz de Christine não era um trabalho do fantasma, mas a sua aptidão que ganhara fôlego. Com isso, a voz feminina novamente ganha leveza e autenticidade, não permitindo que a manipulação do fantasma seja completa - como não o é, no decorrer do enredo.
A leve expressão que ambas personagens destacam não deve ser vista de forma despercebida. Ambas falas - ou cantos - são reflexos de autêntica expressão do homem, sem domínios de outrem. Cantar já denota a expressão dos sentimentos, mas a descoberta de sua individualidade através dos pensamentos reforça sua canção: não se pode nutrir a esperança da criticidade em um indivíduo se o mesmo não tem voz necessária para executá-la. Bela e Christine tiveram. Nós também temos. Será que nos falta uma Fera ou um Fantasma que nos faça falar?

26 de fevereiro de 2010

Mistérios

Escuto que, há cerca de 1h ou 1h30, foi assassinado em Porto Alegre o secretário municipal da saúde da capital, Eliseu Santos. Uma comoção no meio da política, da medicina. Várias pessoas, como o deputado Cherini, o Dr. Goulart, entre outros, falam com pesar sobre o ocorrido.
Sete tiros. Cinco no corpo do finado Eliseu. As rádios anunciam como fato importante, com relevância. E o tem, mesmo sabendo que há o mesmo caso com inúmeros cidadãos perdidos em vilas e tocas da cidade, de quem mal se sabe o nome ou a procedência. Este caso, no entanto, me remete ao caso Becker: um médico morre assassinado a tiros no bairro Floresta. O mesmo local onde morreu o Eliseu. Seria um mero acaso? Eliseu também era médico, também lidava com as questões de saúde da cidade. Becker foi presidente do Cremers. Cargos importantes, em nome da saúde. É estranho e ao mesmo tempo curioso que esse fato tenha ocorrido, ainda mais porque há pouco tempo falavam novamente no caso do médico Becker. Caso complicado...
Esse crime me remeteu àquela obra que li nas férias, Gangsters!. Crimes que aparentemente não esboçam aproximação passam a sê-lo devido a como os assassinos chegaram às vítimas. Infelizmente não há como sabermos o que houve antes da morte deles, pois, como pessoas públicas, zelam pelo particular ao extremo. Reinará o mistério durante algum tempo, até que tenhamos algum tipo de prova, mas prova real, sobre ambos crimes.

21 de fevereiro de 2010

Leituras da velhinha finada

Quando era pequeno, um dos primeiros livros - que não eram necessariamente infanto-juvenis - que li foi O analista de Bagé, do Luís Fernando Veríssimo. Deveria ter uns oito ou nove anos. Não entendia muita coisa sobre as expressões utilizadas pelo analista, ou as piadinhas envolvendo os corpos e as mentes das personagens, mas ria da forma hilária com que a personagem se pronunciava. Ria sozinho. Talvez um candidato a frequentar aquele divã coberto por um pelego.
Nos últimos tempos, não o li mais. Havia visto uma crônica na Zero Hora, há alguns anos, sobre a morte da velhinha de Taubaté. Aquela famosa senhora que acreditava em tudo que os governantes prometiam e cria na mudança do país. Quando as coisas deixaram de ser promessa e viraram realidade, a velhinha morreu. Ela vivia de crenças, não de atitudes. Assim, não mais seria útil sua vida literária. Ou não seria?
Depois de muito tempo, vasculhei alguns livros mais antigos em minha biblioteca e achei A velhinha de Taubaté. Reli. Hilário. Fiquei rindo sozinho em algumas crônicas. Anexo, novas histórias do analista de Bagé. Muito boas. Relembrei da Lindaura, a famosa secretária. Os doentes sempre foram seres que traziam problemas grandiosos, mas que o analista lançava como frescura e que tinham de parar com isso. Algumas coisas até me fizeram lembrar de quando eu frequentava análise: repetições, sonolência, contudo não havia quem dissesse pra que eu acordasse. Se eu fosse ao consultório do bageense, talvez saísse "bem" na primeira consulta.
Essa objetividade de tratar com o próximo aproxima vários elos: a velhinha, agora finada, estava distanciada disso, vivendo num mundo subjetivo; já o analista, extremo oposto, não conseguia analisar o pessoal. A miscigenação desses dois seres trariam um ideal para as pessoas? É possível, ainda mais se sempre formos tratados e nos realizarmos com bom humor.

19 de fevereiro de 2010

Narrativa poética

Há poucos dias, falei sobre minha dificuldade com leituras poéticas. Como a persistência para algumas coisas ainda me é uma virtude, resolvi tentar a leitura de A duquesa e o céu, de Sérgio Lemos. É daquelas obras que mistura a narrativa à linguagem poética, buscando uma miscigenação nem sempre favorável à leitura. Poucos são os autores que conseguem isso e, aparentemente, o finado Lemos consegue.
Como não consegui ler o livro por completo - estava no litoral, naquela situação exposta noutro post - me atenho à linguagem: a busca constante pelas rimas nunca foi a consagração de um poeta. Se fosse assim, Mário Quintana e Carlos Drummond de Andrade seriam pouco lidos. Os autores contemporâneos não teriam vez. Alguns acho até que não tem mesmo. Mas existe gente que lê o Carpinejar. Ele rima pouco. O Luiz Coronel rima de vez em quando. Os pseudo-poetas geralmente criam rimas pobres. Para quem não lembra, a rima pobre é aquela em que tu rimas uma palavra com outra de mesma classe gramatical. É mais fácil rimar cochilar com almejar do que vento com lento. Com uma técnica mais apurada, Sérgio Lemos aproveita-se de certos pontos para a criação de rimas ricas, não ficando preso ao modelo de que se servem muitos autores.
Outra coisa interessante da narrativa poética é a construção de um ambiente subjetivo muito forte. Quando se destaca que as personagens devem se deslocar de localidade, devido a um grande problema que houve onde moravam, eles têm de subir um morro. Essa subida se dá por inúmeros percalços, que acarretarão em mortes, mas em clemência também. Como se estuda mais a linguagem do que a construção narrativa no texto, o ambiente é bastante imaginativo, fazendo com que o leitor inclua sua vivência no conteúdo da obra. A aproximação do céu, benévolo momento da passagem da vida, destaca que a saída é um final bom, feliz para quem lê. Assim, deixa-se de lado a ideia de que só os problemas fazem a vida da pessoa, e sim a redenção se tem como peça fulcral ao final da narrativa.
De textos como esses, esperamos diversos resultados. O mais provável deles é a dificuldade de leitura, pois não é fácil de lê-lo. Não basta apenas a persistência para ler o livro, entretanto a atenção e a admiração pelo estilo devem preponderar. Espero que até o fim das férias eu também entre nessa.

18 de fevereiro de 2010

Na onda das aventuras fantásticas

Enquanto a gurizada se diverte com as séries Crepúsculo, Harry Potter e derivados, mantive minha rotina de leituras voltada temporariamente para essas aventuras fantásticas. Presenças funéreas, personagens monstruosas e cenas de ação intensa fazem parte da obra A mão que cria, de Octávio Aragão.
O enredo é bastante curioso: após um colapso na Terra, uma explosão na gélida Rússia, pessoas que morrem viram zumbis, com força triplamente superior ao que tinha antes. Experimentos realizados na França desde o século XIX, a partir da abertura científica do prefeito de Paris e posterior presidente francês Julio Verne, criaram os homens-golfinho. Os humanos puros, digamos, tornaram-se meros coadjuvantes: enquanto os zumbis tentam destruir os homens, os híbridos tentam salvá-los, ainda mais para serem aceitos no meio. A obra trata sobre preconceito, ciência, relações interpessoais, além da constante ideia de se revelar tudo através de personagens distantes (?) do homem.
A intensão de refletir sobre quem é o homem através da ótica do não-humano não se observa com tanta intensidade. Há, mas em menos conflitos psicológicos ou meras reflexões, como no caso de Anax, do livro Gênesis, discutido neste blog. Aproxima-se realmente das obras mais lidas pelo público, apesar de sua profundidade não ser tão grande quanto em outras obras. Deve-se considerar, porém, que é um livro de 160 páginas, nem de perto das cerca das 3000 que os livros da J.K. Rowling somam ou os 1000 da Stephenie Meyer. Ainda assim, a observação da realidade de uma humanidade desacreditada e perdida é um dos focos do texto.
Nessa leitura, pensando um pouquinho sobre esses mais vistos pela mídia e de apelo popular, vê-se o que todos querem de um texto ficcional: que seja brusco em seu enredo, causando emoção; que contenha personagens sensíveis, para a catarse; que tenha um final apoteótico, por um lado para não pensar, por outro para afirmar suas próprias certezas. Não é nenhuma crítica contundente, pelo contrário: é o que todos desejam. Assim, a obra encaixa-se num paradigma de leitura que a promove, não sendo apenas um mero livro publicado.

11 de fevereiro de 2010

Monstro tímido

Dessa última passagem pelo litoral, uma das leituras que me restou foi A timidez do monstro, de Paulo Scott. Um mundo de ideias simples, configuradas sobre poemas curtos em sua maioria, mas não menos profundos. Dá para qualificar como uma obra de profundidade simples, bastante intimista, subjetiva, mas de compreensão não menos importante.
Isso, porém, me fez novamente desvelar meu anti-gosto por poesia contemporânea. Acho que sou parnasiano e não sei. O poema não precisa ter métrica plenamente estudada pra ser um poema, bastando que sua produção, dentro do sistema inserido de construção, traga representações aos leitores. Por isso que os poemas concretistas da metade final do século passado tiveram suas produções bastante estudadas. Distantes da ideia comum de produção textual, os concretistas batalharam por uma poema que envolvesse texto e imagem, causando suas catarses necessárias.
Não gosto da produção concretista, contudo. Comprei o livro de um autor português, chamado E.M. de Melo Castro, intitulada Antologia efémera. O autor transluce de uma poesia escrita para uma imagética, ferando significados aparentemente bem diferentes das primeiras produções. O que parece um neossimbolista torna-se um concretista monstruoso. Só não me decide por qual vértice: se pela grande construção textual ou pela falta de inteligibilidade de alguns textos.
De qualquer forma, gosto de lecionar poemas pela profundidade de significados contidos. Que confuso. Talvez haja em mim um monstro poético tímido, que não aflorou. Afinal, a timidez do monstro não se prende apenas à falta de expressões que ele tenha, mas à incapacidade de identificar aquilo que lhe pode ser o melhor.